Da rua, você não nota. Do alto, o leque é evidente. E a história por trás dele derruba um mito que Boa Vista carrega há décadas.
A capital de Roraima tem um dos traçados urbanos mais singulares do Brasil. Avenidas que partem de um ponto central e se irradiam em leque até os limites da cidade, criando uma geometria que só aparece inteira quando se olha do alto. O plano foi desenhado em 1944. Mas a inspiração por trás dele não foi o que quase todo mundo acredita.
A cidade que nasceu como fazenda e virou capital de território
De fazenda à beira do Rio Branco a capital federal
Boa Vista começou como fazenda. A Fazenda Boa Vista do Rio Branco, estabelecida no século XIX na margem direita do Rio Branco, deu origem ao núcleo urbano que se tornaria capital. Em 1890, o distrito de Boa Vista foi criado formalmente. Por décadas, foi apenas uma vila de interior, distante de tudo e com poucos recursos.
A região chegou ao século XX como território de disputa de fronteiras, de exploração de borracha e de missões religiosas. Sem infraestrutura, sem conexão eficiente com o restante do país, a vila cresceu lentamente às margens do rio que lhe deu o nome.
O território que Vargas criou e precisava de uma cidade à altura
Em 13 de setembro de 1943, Getúlio Vargas assinou o decreto que criou o Território Federal do Rio Branco, separando a região de Roraima do estado do Amazonas. O primeiro governador nomeado foi o capitão Ene Garcez dos Reis. Chegou a uma vila com cerca de 1.800 habitantes e pouco mais de 20 quadras irregulares.
O desafio era transformar aquela vila numa capital de território com estrutura administrativa, infraestrutura urbana e capacidade de crescer. A solução foi um concurso público de projetos urbanísticos. Em 21 de setembro de 1944, o concurso foi vencido pela empresa Riobras Industrial Ltda, do engenheiro civil Darcy Aleixo Derenusson.
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O leque que Darcy Derenusson desenhou em 1944
O concurso e o engenheiro que veio do Rio
Darcy Aleixo Derenusson (1916-2002) era engenheiro civil formado pela antiga Escola Politécnica Nacional, no Rio de Janeiro. Antes de Boa Vista, já tinha participado da elaboração do Plano Diretor de Volta Redonda, onde teve contato direto com o pensamento urbanístico de Attilio Corrêa Lima, o mesmo urbanista responsável pelo projeto de Goiânia.
O projeto que Derenusson apresentou para Boa Vista foi elaborado entre 1944 e 1946, antecedido de levantamento topográfico, recenseamento da população e estudos socioeconômicos. Não era um esboço: era um plano completo com infraestrutura de esgoto, abastecimento de água, energia elétrica e uma equipe de especialistas mobilizada para a execução.
Como o traçado radial funciona: do Centro Cívico às extremidades
O conceito central do plano era um ponto de irradiação único: o Centro Cívico. Dali, avenidas largas partem em direções diferentes, como os varões de um leque aberto. Entre essas avenidas radiais, ruas transversais formam arcos concêntricos que conectam os setores da cidade.
O resultado, visto do alto, é uma forma que se assemelha a um semicírculo ou leque. O Rio Branco fecha o contorno pelo lado ocidental, funcionando como limite natural e como eixo de orientação geográfica. Os poderes do estado, a Assembleia Legislativa, o Tribunal de Justiça e o Palácio do Governo, ocupam o Centro Cívico até hoje.
Boa Vista entre as capitais planejadas do Brasil
O plano de Derenusson colocou Boa Vista como a terceira capital planejada do período republicano brasileiro, depois de Belo Horizonte (1893) e Goiânia (1933). Brasília viria em 1957 e Palmas em 1989. Cada uma com uma lógica urbanística diferente, mas todas nascidas de uma decisão política de criar uma cidade antes de os moradores chegarem.
| Capital | Estado | Ano do plano | Urbanista responsável | Forma característica |
|---|---|---|---|---|
| Belo Horizonte | MG | 1893 | Aarão Reis | Grade ortogonal com diagonais |
| Goiânia | GO | 1933 | Attilio Corrêa Lima | Radial com setores |
| Boa Vista | RR | 1944 | Darcy Aleixo Derenusson | Leque radial |
| Brasília | DF | 1957 | Lúcio Costa | Plano piloto em asa |
| Palmas | TO | 1989 | Luís Fernando Cruvinel e Walfredo Antunes | Grade ortogonal |
O mito de Paris e o que o filho do engenheiro revelou
Por que todo mundo dizia que era inspirado em Paris
Durante décadas, a explicação mais repetida para o traçado de Boa Vista era simples: o engenheiro se inspirou nas avenidas radiais de Paris, especialmente no modelo Haussmanniano do século XIX, com bulevares que partem de pontos centrais em direção às extremidades da cidade.
A comparação é visualmente sedutora. Vista do alto, Boa Vista lembra de fato a estrutura radial que Baron Haussmann projetou para Paris na segunda metade do século XIX. A história circulou em livros didáticos, guias turísticos e em praticamente todo conteúdo sobre a cidade produzido no Brasil.
A declaração que desfez o mito
Em novembro de 2016, a Universidade Federal de Roraima e os Correios lançaram um selo comemorativo do centenário de Darcy Aleixo Derenusson. Na ocasião, o filho do engenheiro, o arquiteto Darcy Romero Derenusson, deu uma entrevista à Folha de Boa Vista e colocou a questão diretamente: a inspiração de seu pai não tinha nada a ver com Paris.
Segundo ele, o modelo que orientou o projeto era o conceito de cidade-jardim, uma corrente urbanística inglesa do início do século XX que propunha cidades planejadas com integração entre áreas edificadas e espaços verdes, com formas orgânicas e vias que favorecessem a circulação e a qualidade de vida. Era novidade no Brasil da época e já havia influenciado o pensamento de Attilio Corrêa Lima, com quem Derenusson teve contato em Volta Redonda.
A revelação foi documentada em artigo acadêmico publicado na revista Vitruvius em janeiro de 2018, assinado por pesquisadores da UnB e pela própria família Derenusson, que reconhece Boa Vista como a terceira capital projetada do período republicano brasileiro.
O que muda com essa correção
A diferença não é apenas histórica. Cidade-jardim e modelo haussmanniano partem de premissas opostas: um busca integração com a natureza e qualidade de vida no cotidiano; o outro prioriza circulação, monumentalidade e controle urbano. Boa Vista, com seus espaços verdes integrados ao traçado e a proximidade com o Rio Branco, faz mais sentido como cidade-jardim do que como Paris tropical.
O mito de Paris era mais palatável para o imaginário nacional. A realidade é mais interessante: um engenheiro carioca chegou ao norte remoto do Brasil com ideias urbanísticas de ponta para a época e as aplicou num projeto que a cidade carrega até hoje.
A única capital brasileira totalmente acima da Linha do Equador
Boa Vista carrega outro dado geográfico que raramente aparece no mesmo contexto que o leque: é a única capital estadual brasileira localizada inteiramente ao norte da Linha do Equador. Todas as outras capitais do Norte, de Belém a Manaus, estão no hemisfério sul ou cortadas pela linha.
Isso tem implicações concretas. O clima é equatorial, quente o ano todo, com estação seca pronunciada entre novembro e março e chuvas intensas no restante do ano. A cidade situa-se às margens do Rio Branco, num lavrado, o cerrado típico de Roraima, que convive com a floresta amazônica ao sul e ao oeste.
Com 470.169 habitantes no Censo 2024 do IBGE, Boa Vista concentra cerca de dois terços da população de Roraima. O crescimento acelerado nas últimas décadas, impulsionado pela migração venezuelana especialmente a partir de 2015, testou os limites do traçado original e expandiu a cidade para além do leque projetado em 1944.
O leque hoje: o que ficou do plano original
Como a cidade cresceu dentro e fora da lógica radial
O plano de Derenusson previa a ocupação gradual do território, com expansão controlada a partir do Centro Cívico. Na prática, o crescimento acelerado das décadas de 1950 e 1960 foi além do ritmo previsto. A operação urbanística se estendeu por toda a década de 1950 e dividiu a cidade em cinco bairros iniciais: Centro, Porto da Olaria, São Francisco, São Pedro e Caimbé.
O traçado radial do núcleo central foi preservado. As avenidas que partem do Centro Cívico continuam definindo a identidade visual da cidade e a forma como seus moradores se orientam. O que mudou foi o entorno: bairros que cresceram fora do plano original, com lógicas diferentes, convivem hoje com o leque histórico.
O Centro Cívico como ponto de irradiação
O Centro Cívico que Derenusson projetou como ponto de partida de todo o traçado ainda existe e ainda concentra os poderes do estado. A Assembleia Legislativa, o Tribunal de Justiça e o Palácio do Governo estão no mesmo centro que o engenheiro definiu oito décadas atrás. É um dos casos em que o plano original resistiu ao crescimento e às pressões políticas que normalmente redefinem os centros de poder urbano.
Para consultar o CEP de qualquer endereço em Boa Vista, acesse a ferramenta de busca do Rua CEP. A série completa de capitais planejadas do Brasil inclui ainda Aracaju e Teresina.
Um leque aberto para o norte do país
Derenusson chegou a uma vila de 1.800 habitantes no extremo norte do Brasil com um projeto que levou mais de quarenta anos para ocupar plenamente. O leque que ele desenhou sobreviveu a décadas de crescimento, a dois nomes de território e estado, e a uma migração que multiplicou a população em décadas.
O mito de Paris durou quase oitenta anos. A verdade é mais discreta e mais precisa: um engenheiro que conhecia as melhores ideias urbanísticas de sua época aplicou o conceito de cidade-jardim num lugar que quase ninguém conhecia. E o resultado ficou.
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Perguntas frequentes sobre Boa Vista
Por que Boa Vista tem formato de leque?
O traçado urbano em forma de leque de Boa Vista foi projetado entre 1944 e 1946 pelo engenheiro civil Darcy Aleixo Derenusson. O plano criou avenidas radiais que partem do Centro Cívico em direção às extremidades da cidade, formando um semicírculo ou leque quando visto do alto. O Rio Branco delimita o contorno ocidental da cidade. O projeto foi vencedor de concurso público lançado pelo governador do então Território Federal do Rio Branco em 1944.
Quem projetou o traçado urbano de Boa Vista?
O plano urbanístico de Boa Vista foi projetado pelo engenheiro civil Darcy Aleixo Derenusson (1916-2002), por meio de sua empresa Riobras Industrial Ltda, que venceu o concurso público em 21 de setembro de 1944. O projeto foi elaborado entre 1944 e 1946 e incluiu infraestrutura completa de esgoto, abastecimento de água e energia elétrica, além do traçado radial que define a cidade até hoje.
Boa Vista foi inspirada em Paris?
Não. Apesar da crença popular, o filho do engenheiro, o arquiteto Darcy Romero Derenusson, declarou à Folha de Boa Vista em 2016 que a inspiração do projeto não foi Paris, mas o conceito de cidade-jardim, uma corrente urbanística inglesa do início do século XX. A declaração foi posteriormente documentada em artigo acadêmico publicado na revista Vitruvius em janeiro de 2018, co-assinado pela família Derenusson e por pesquisadores da UnB.
Boa Vista é a única capital acima da Linha do Equador?
Sim. Boa Vista é a única capital estadual brasileira localizada inteiramente ao norte da Linha do Equador, no hemisfério norte. As demais capitais da Região Norte do Brasil, como Belém, Manaus e Macapá, estão abaixo da linha ou cortadas por ela.
Quando Boa Vista se tornou capital de estado?
Boa Vista era capital do Território Federal do Rio Branco desde 1943, quando Getúlio Vargas criou o território separando a região de Roraima do Amazonas. Em 1988, a Constituição Federal transformou o Território Federal do Rio Branco no Estado de Roraima, mantendo Boa Vista como sua capital.
Como consultar o CEP de um endereço em Boa Vista?
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